O par de olhos estava suavizado por um gesto que combinava curiosidade e ceticismo. Tentava mantê-los levemente semicerrados, numa tentativa legítima de proteger-se contra qualquer eventual invasor.
Mas era inevitável. O corpo buscava refúgio atrás de palavras e gestos largos, mas os olhos, eles, seguiam seu próprio caminho durante toda a conversa. Estava claro: eram vidas independentes em um homem disposto a manter-se intacto. Eles, não. Os olhos estavam ali para deparar-se com intempéries, marchas ao Norte, ingratidões.
Quando comecei a servir o chá de alecrim, o corpo, subitamente, decidiu retirar-se. Não queria beber insensatez, onde é que já se viu. Dirigiu-se para o canto mais escuro da sala e começou um longo monólogo que, minutos depois, eu descobriria como um diálogo. O corpo, os olhos.
Não chegaram a um consenso. O corpo bateu a porta com violência. Os olhos observaram a partida com certa compaixão. Porque há casos onde só nos resta esperar pelo inexorável.